domingo, 4 de julho de 2010

EU, ROBOT

De acordo com sábias palavras de Don Miguel Ruiz, o que vivemos e ouvimos nesse exato momento não passa de um sonho.
O sonho é anterior ao nosso nascimento. Foi criado pelos que vieram antes de nós, e o podemos chamar de Sonho da Sociedadade.
Esse Sonho da Sociedade inclui regras, comportamento, crenças, leis, cultura, bem e mal, certo e errado, enfim ... e como nascemos com a capacidade de sonhar, os que vieram antes de nós nos ensinaram a sonhar da forma que a sociedade sonha.


Não escolhemos nosso nome, nossos valores morais, nossa religião. Não nos deram a oportunidade de escolher no que acreditar ou não.
Mas aprendemos a acreditar, aprendemos a sonhar o sonho alheio. Concordamos com a informação que nos foi passada e acreditamos incondicionalmente nos certos e errados sonhados.
Fomos todos domesticados desde a infância. E no processo de domesticação (assim como se domestica um cão), fomos premiados ou punidos, de acordo com um sistema de castigos e recompensas.
Não faça isso, faça aquilo ... e com medo da rejeição e necessidade da recompensa - a atenção e amor alheios - nos afastamos de nosso Eu e nos domesticamos para agradar o papai, a mamãe, o professor, o chefe, o namorado, a sociedade.


Já adultos, o massacre sofrido pelo Eu é tão forte que não mais precisamos desses treinadores. Nos tornamos animais autodomesticados com nosso próprio juiz interno, ditando as regras de acordo com o Livro da Lei escrito pela sociedade.
Nosso juiz interno a tudo julga .. o cão, o gato, o tempo, o que pensamos, fazemos, sentimos.
Toda vez que fazemos algo que vai contra o Livro da Lei, nosso juiz interno nos diz que somos culpados, que devemos nos envergonhar, que precisamos ser punidos.


Mas, junto ao juíz interno, convive em nós a vítima. Essa carrega a culpa, a vergonha, a responsabilidade, a sensação de não ser bom o bastante, não ser digno, não ser atraente, não merecer amor e respeito.
O grande juíz interno concorda com a vítima e diz: sim, você não é bom o suficiente.


Não basta se tornar adulto e ser apresentado a novos valores e conceitos pois, mesmo incorporando ao nosso mundo tais valores, terminamos por descobrir que as velhas crenças ainda controlam nossas vidas.
Quebrar as regras do Livro da Lei abre ferimentos emocionais, porque aprendemos com nossos pais e, mais tarde com nosso juiz interno, que tudo o que está escrito lá é verdade.
E qualquer coisa que vá contra aquelas verdades produz insegurança. Mesmo que o Livro esteja errado, ele faz com que nos sintamos seguros.
Todas as Leis estão no Livro e o juiz dentro de nós baseia tudo nessas regras.
Mas, seria justo esse juíz?


Justiça é pagar por um erro apenas uma vez. Nenhum condenado vai para a cadeia pagar pelo mesmo crime duas vezes.
Quantas vezes pagamos pelo mesmo erro? Milhares de vezes.
O ser humano é o único animal sobre a Terra que paga mil vezes pelo mesmo erro.
Nossa memória é poderosa. Cometemos um erro, somos julgados por nosso juiz interno, condenados e castigados.
Se existe justiça, é o suficiente. Não precisamos sofrer duas vezes pelo mesmo erro cometido.


Mas não funciona assim: lembramos do erro, relembramos, nos declaramos culpados e nos punimos outra vez, e outra, e outras tantas ainda.
E, se não o fizermos, outras pessoas o farão.
Usarão seu próprio juíz interno para nos lembrar centenas de vezes do mesmo erro, jogando sobre nós seu veneno emocional.
E seremos julgados, condenados e punidos essas centenas de vezes.
A maioria das pessoas tem medo do inferno, o 'local das punições', mas .. onde fica o inferno?


Más notícias: já estamos no inferno!
Fica exatamente aqui: o local da punição, da dor, do sofrimento, da violência física e verbal, da raiva, da vingança, do medo, do ódio, da inveja.
É aqui que transformamos nosso sonho num pesadelo.
É aqui que nosso juíz interno nos condena e condena e condena.
É aqui que juízes internos alheios anotam em seus Livros da Lei - seu caderninho de notas - nosso erros e nossas dores.
E é aqui que, vez por outra, enfiam seus dedos cheios de ódio em nossas feridas não cicatrizadas e, como donos absolutos da verdade, nos fazem sofrer pela enésima vez a mesma dor.


Ah, mas você não quer sentir dor. Eu não quero sentir dor. Fácil, fácil:
decore as regras pré-estabelecidas (sabe-se lá por quem) e não as quebre nunca;
absorva os pré-conceitos e viva de acordo com eles;
carregue um pocket do Livro da Lei na bolsa e consulte em caso de dúvida;
não saia de sua zona de conforto, não ouse, não contradiga, não mude
Afinal, não nos deram uma vida para viver. Nossa Certidão de Nascimento é apenas uma ficha de múltipla escolha. Marque o X na resposta certa; não se atreva a cogitar a hipótese da resposta certa não estar entre as opções.
Vida programada, mente condicionada, um a mais entre a massa que marcha ao som da mesma batida, na mesma direção ... a direção do nada.


Eu, robot ...
Mas, deixa falar baixinho para o juíz interno não escutar: robots tem botões.
Se um dia você se atrever a acordar, procura o botão F e aperta. Algo parecido com ctrl+alt+del. Não entendeu? Eu explico:
Ligue o FODA-SE e seja feliz!

8 comentários:

₤α fєммє disse...

Hey,
mexeu aqui dentro sabia, li e reli e reli e reli e copiei (Não vou publicar) mas preciso ler de novo.
Talvez eu seja bobada como você me chama, mas para quem leu Metamorfose de Kafka 4 vezes, porque algo me incomodava.
Isso é pinto.
PQP, enfiou o dedo na ferida hem.

Que puta texto!!!

Kaillean disse...

Também li a Metamorfose de Kafka (e aos 14 anos)porque, adolescente, já me incomodava esse coisa que não se sabe nomear.
(e só vc mesma para ler esse texto inteiro, bobada .. rs)
beijos, loura bonita

Anônimo disse...

Somos o que quiseram que fossemos... O script da nossa vida foi escrito por outros... fato. Porém, temos o poder de refazê-lo... Não é fácil, mas é preciso de consciência, entendimento e vontade...
Bjo.
ISAC AZIMOV (RD)

€lєҟtrα disse...

Kaillean conhecendo e gostando do seu Blogger.

Muito bem escritos/escolhidos os teus textos. Parabéns!

Beijokas*

Samael disse...

Três metamorfoses, nomeio-vos, do espírito: como o espírito se torna camelo e o camelo, leão e o leão, por fim, criança.
Muitos fardos pesados há para o espírito, o espírito forte, o espírito de suportação, ao qual inere o respeito; cargas pesadas, as mais pesadas, pede a sua força.
“O que há de pesado?”, pergunta o espírito de suportação; e ajoelha como um camelo e quer ficar bem
carregado.
“O que há de mais pesado, ó heróis”, pergunta o espírito de suportação, “para que eu o tome sobre mim e minha força se alegre?
Não será isto: humilhar-se, para magoar o próprio orgulho? Fazer brilhar a própria loucura, para escarnecer da própria sabedoria?
Ou será isto: apartar-se da nossa causa, quando ela celebra o seu triunfo?
Subir para altos montes, a fim de tentar o tentador?
Ou será isto: alimentar-se das bolotas e da erva do conhecimento e, por amor à verdade, padecer fome na alma?
Ou será isto: estar enfermo e mandar embora os consoladores e ligar-se de amizade aos surdos, que não ouvem nunca o que queremos?
Ou será isto: entrar na água suja, se for a água da verdade, e não enxotar de si nem as frias rãs nem os ardorosos sapos?
Ou será isto: amar os que nos desprezam e estender a mão ao fantasma, quando ele nos quer assustar?”
Todos esses pesadíssimos fardos toma sobre si o espírito de suportação; e, tal como o camelo, que marcha carregado para o deserto, marcha ele para o seu próprio deserto.
Mas, no mais ermo dos desertos, dá-se a segunda metamorfose: ali o espírito torna-se leão, quer conquistar, como presa, a sua liberdade e ser senhor em seu próprio deserto.
Procura, ali, o seu derradeiro senhor: quer tornar-se-lhe inimigo, bem como do seu derradeiro deus, quer lutar para vencer o dragão.
Qual é o grande dragão, ao qual o espírito não quer mais chamar senhor nem deus? “Tu deves” chama-se o grande dragão. Mas o espírito do leão diz: “Eu quero”.
“Tu deves” barra-lhe o caminho, lançando faíscas de ouro; animal de escamas, em cada escama resplende, em letras de ouro, “Tu deves!”
Valores milenários resplendem nessas escamas; e assim fala o mais poderoso de todos os dragões: “Todo o valor das coisas resplende em mim.
Todo o valor já foi criado e todo o valor criado sou eu. Na verdade, não deve mais haver nenhum ‘Eu quero’!” Assim fala o dragão.
Meus irmãos, para que é preciso o leão, no espírito? Do que já não dá conta suficiente o animal de carga, suportador e respeitador?
Criar novos valores – isso também o leão ainda não pode fazer; mas criar para si a liberdade de novas criações – isso a pujança do leão pode fazer.
Conseguir o direito de criar novos valores – essa é a mais terrível conquista para o espírito de suportação e de respeito. Constitui para ele, na verdade, um ato de rapina e tarefa de animal rapinante.
Como o que há de mais sagrado amava ele, outrora, o “Tu deves”; e, agora, é forçado a encontrar quimera e arbítrio até no que tinha de mais sagrado, a fim de arrebatar a sua própria liberdade ao objeto desse amor: para um tal ato de rapina, precisa-se do leão.
Mas dizei, meus irmãos, que poderá ainda fazer uma criança, que nem sequer pôde o leão? Por que o rapace leão precisa ainda tornar-se criança?
Inocência, é a criança, e esquecimento; um novo começo, um jogo, uma roda que gira por si mesma, um movimento inicial, um sagrado dizer “sim”.
Sim, meus irmãos, para o jogo da criança é preciso dizer um sagrado “sim”: o espírito, agora, quer a sua vontade, aquele que está perdido para o mundo conquista o seu mundo.
Nomeei-vos três metamorfoses do espírito: como o espírito tornou-se camelo e o camelo, leão e o leão, por fim, criança.
Assim falou Zaratustra. E achava-se nesse tempo, na cidade chamada A Vaca Pintalgada.

Impossível não lembra e Nietzsche em Assim falou Zaratustra ao ler seu texto, que está ótimo, por sinal.

Kaillean disse...

Grata por seu comentário.
De certa forma, não considero apenas um comentário, mas o texto de Nietzsche 'arremata' filosófica e brilhantemente o que foi escrito.
Parece que ainda existem pessoas que, como eu e La Femme, leram Nietzsche, Camus, Kafka e outros loucos gênios.
Bom saber que existem cérebros pensantes nesse meio.

Sir das Trevas disse...

Em boa hora visitei seu blog, intelectualmente desenvolvido, espiritualmente inquietador. Segui-lo ei.
O seu texto é tão sublime que o único comentário que posso fazer é oferecendo-lhe a transcrição de uma poeta portuguesa, infelizmente já partida. musicado fica ainda mais claro, pelo que um destes dias talvez o venha a postar no meu blogue que está apenas nascendo.
Obrigado pela sua brilhante exposição, Cumprimentos,
ST

Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

Natália Correia, in "O Nosso Amargo Cancioneiro"

Kaillean disse...

Sir das Trevas
Grata pelas palavras e pelo poema.
Espero embreve visitar seu blog. :)